09.00-12.00: Leituras preguiçosas.....e um olho por "Os Retornados".
15.30-20.00: Viseu-Porto-Santiago de Compostela
22.00-…. Organização de trabalho e Correspondência.
HAF
Editorial
À janela do mundo me coloco também para observar e comentar as múltiplas cidades que me interessam, os seus actores e instituições. Sem uma agenda definida. Pelo simples prazer de dar palavras a ideias quando tal me apetecer. Um exercício de liberdade e cidadania.
DiáriodeumaCatedraaJanela é um blog de autor, um espaço de opinião aberto a todas as dimensões que se inscrevem na minha identidade . A de um autor com experiência e memória de mais de meio século partilhadas entre África e Europa, Casado (há quase 30 anos), Pai (de três filhos), Livre Pensador, Cidadão (Português e Europeu) , Professor (Catedrático) e Historiador . O Diário passará por tudo isto, mas com o carácter de “conta-corrente”, só mesmo a vida académica, que no momento em que este editorial foi escrito de(le)itava-se em mais uma falsas férias.
Não me coloco ao abrigo de uma atalaia. Pretendo também ser observado, expondo o meu dia a dia profissional. É uma forma de ajudar a superar a miserável (manipulação da ) ignorância do “povo” e proporcionar a possibilidade de contrapôr experiências à retórica e oportunismo mediáticos de muitos observadores e políticos pouco criteriosos. Os cidadãos podem conhecer de perto o que nós (professores universitários com carreira universitária) fazemos pelo país, o modo como o fazemos e o que pensamos sobre o modo como podemos fazer ainda mais e melhor.
A começar a 1 de Setembro. Não por ser o dia dedicado pela Igreja Católica à bela “Santa Beatriz da Silva Menezes, Virgem “ (1490-c 1550). Não por constituir efeméride da invasão da Polónia pela Alemanha (1939), da Conferência de Belgrado (1961) ou da tomada do poder por Muammar al-Qaddafi (1969). Não também pelo comemorativo propósito dos dias do Caixeiro Viajante ou do Professor de Educação Física. Nem sequer por marcar o nascimento de António Lobo Antunes (1942), o autor das extraordinárias “D´este viver aqui neste papel descripto. Cartas da Guerra” (1971-1972) , cuja edição as filhas organizaram (2005) , ou de Allen Weinstein (1937), prestigiado historiador americano e actual “Archivist of the United States “. Nada disso. Também não é por corresponder ao 9802º dia da minha actividade como professor universitário, cujo início data de 30 de Outubro de 1980, quatro meses após a conclusão da licenciatura e uma disputa em concurso público limpinho. Apenas porque me fica mais em conta.
Vamos lá tentar fazer disto um mundo aberto.
Burgau, 15 de Agosto de 2007
Helder Adegar Fonseca (HAF)
Domingo, Maio 25
10064º Dia
10063º Dia
I
Um dia dedicado ao outro lado da família, pelas terras do Satão e Silvã de Cima , uma aldeia de idosos, mas ainda bastante cuidada. Se a “fábrica” de pinhões e avelãs fechou, as terras ainda estão tratadas e a vinha prospera. Todavia já se vê mato onde antes não havia. Não se vê gente e os velhos sons de há duas décadas já não estão na aldeia. Pressente “La Fin des Paysans” (H. Mendras, 1967). Temos a certeza de que não faz falta este mundo que estamos a perder (P. Laslett,1965)?
II
Nestes meios nota-se um grande desprezo pelo actual governo e em especial pelo Primeiro Ministro, o “empregado dos ricos”. Não “pelo que faz” aos velhos mas “pela forma como trata as profissões e os trabalhadores”, para usar a forma como um deles se expressou…!!!!
HAF
Sábado, Maio 24
10062º Dia
I
À volta de escolas e programas de doutoramento…. e um passeio pela “capital” das Beiras, uma cidade que cresce…
II. Paris, Maio 1968
Enquanto prosseguiam as manifestações de estudantes em Paris, a polícia aplicava gás lacrimogéneo e canhões de água e revelava as primeiras hesitações sobre o seu lugar na barricada, a Sociéte des Gens de Lettres de France era ocupada por centenas de autores. A instituição - constituída em Paris em 1838, por H. Balzac, Victor Hugo ( o “cidadão europeu”), A. Dumas e G. Sande. A SGDL, actualmentre presidida por Alain ABSIRE promoverá no próximo dia 28 de maio a re-ocupação da sua sede [Hôtel de Massa – 38 rue du Faubourg Saint-Jacques- 75014 Paris] para apresentação do livro colectivo « Écrire, mai 68 » , uma edição da Argol.
HAF
Sexta-feira, Maio 23
10061º Dia
Regressar a Viseu-Pindelo de Silgueiros torna-se quase sempre o cumprir de um roteiro através de framentos do passado. Um deles para uma aldeia portuguesa no início dos anos 1960s, um lugar sujo, feio, pobre, miserável, com pequenas “ilhas” de dominantes e uma ou outra famílias autónomas e emergentes numa crição “recente” de regressados das colónias ou com nelas pequenos interesses instalados.
Viajámos com os pais : a mãe, branca e angulense [natural de Angola]; o pai, pindelense, que partiu como “povoador” para Angola nos finais dos anos 1940s. Era a primeira vez que a família vinha ao “berço paterno”. Chegámos numa noite de início de outono, com algum temporal. Eu o e meu irmão varicelados, o que nos obrigou a uma longa quarentena, encerrados num quatro cuja janela tornou-se mirador diário dos campónios locais, crinças e adultos que vinham ver os “pretos” angolanos.
Um período de que, apesar da abundância com que se vivia na casa avoenga, guardo na memória quase só uma palavra: miséria geral . Contra a vontade materna frequentámos a “escola primária “ local: uma “sala única” [1ª à 4ª classes) com carteiras individuais, um quadro de ardósia , paredes sujas e retratos da então elite política de topo; e uma casota-sanita colectiva cavada numa banca de madeira que descarregava directamente para uma “cave” que semanalmente era limpa por um homem com uma carroça que levava os excrementos para abubo de terra. Hoje são visíveis alguns melhoramentos : fora da aldeia, a nova escola primária [não sei se encerrada), uma escola C+S que também serve as freguesias circundantes, um acesso melhorado, poucas casas (antigas e recentes) mantidas com dignidade: a dos F&C parece habitada, e as outras estão com ar recuperado provavelvente por emigantes ou herdeiros de retornados. Num e noutro caso… quase tudo já na era pós-descolonização.
Visitei a casa avenga, abandonada e degradada , o beco e o espaço da velha escola, a”casa das tias” , a aldeia quase moribunda, e os familiares por ali ainda dispersos, farrapos com dignidades e mundos diferentes. Atrevi-me a subir a velha [de décadas] e enorme tangerineira da casa do Carlos, espreitei os quintais já só semi-cultivados e de novo, nada vi. Um declínio sem retorno. Saí da aldeia rumo a uma outra vizinha para visitar o tio paterno mais novo, agora com 71 anos, ali casado e residente , que em Angola e num dado momento da minha juventude ficou a termo certo [um ano] com a minha educação a seu cargo enquanta a família viajava.
HAF
Quarta-feira, Maio 21
10060º Dia
09.00-11.00: Burocracia diversa
11.00-13.00: Reunião com orientando
14.00-16.30: Programa de Doutoramento
17.00-20.00: Aulas HCT-Exp. Historiográfica.
21.30-.....: Viagem .... pela Beira a caminho de USC
Terça-feira, Maio 20
10059º Dia
Um dia quase inútil, de pequenas coisas, de incómodos de saúde e de , na hora certa, não estar capaz de dar uma aula. Uma preocupação na véspera de uma viagem e estada na USC.
A situação na África do Sul impressiona, tanto o violência xenófoba, como a relação solidária que parece existir entre (alguns) portugueses residentes e os imigrantes moçambicanos. As vidas desemaranham-se e emaranham-se. Dias sombrios se aproximam.
HAF
Segunda-feira, Maio 19
10058º Dia
I
08.00-10.00: Leituras (textos de teses em curso…)
10.00-12.30: preparação de aulas
14.00-15.30: Aula HPC
15.45-17.00: recepção de alunos e tutoria suplementar
17.00-19,30: aula SP_SC-TSC (MEHE)
19.00-20.00: Reunião sobre doutoramentos, NICPRI etc…
II- Portugal e o Investimento Estrangeiro em 2007: tudo ao contrário dos restantes paises da UE (que seguramente são todos uns nabos e deveriam estar preocupados)
Eu sei que os noticiários falaram todos nisso e até ouvi os comentários extraordinários dos comentadores de serviço afectos ao governo. Mas mesmo assim quero que aqui fique registado o patamar onde se localiza a nossa incompetência (as nossas elites políticas e empresariais). O extracto que a seguir vai ler foi hoje incluso em Notícia.rtp.pt:
«Portugal recebeu menos investimento em 2007 e também investiu menos lá fora. Os dados do Eurostat revelam uma tendência contrária à generalidade da UE. O ministro da Economia desvaloriza estes números.
O investimento directo estrangeiro (IDE) em Portugal originário de outros países da União Europeia desceu 56,25%, para os 2,8 mil milhões de euros. Também em 2007, o IDE originário de países fora dos 27 caiu 51,8%, para os 1,3 mil milhões de euros.
O organismo responsável pelas estatísticas europeias, Eurostat, indica que de igual forma os investimentos realizados por Portugal no estrangeiro desceu 22% em 2007.
O IDE português nos 27 baixou de 3,6 mil milhões de euros em 2006 para 2,8 mil milhões de euros em 2007. Para países fora da União Europeia, a quebra foi de 10,7%, para 1,7 mil milhões de euros (1,9 mil milhões em 2006).
Números contrários à generalidade da União Europeia
O Eurostat avança que os Estados-membros da União Europeia receberam mais 23,3 mil milhões de euros de IDE comunitário. O IDE de países fora do bloco comunitário cresceu 90%, de 168,9 mil milhões de euroes em 2006 para os 319,2 mil milhões em 2007. A Europa a 27 também investiu mais 50% lá fora do que em igual período de 2006.
Ministro da Economia desvaloriza dados do Eurostat
O ministro da Economia afirmou que os valores avançados pelo Eurostat incluem vários dados, mas que o mais importante é o relativo a investimentos de raíz. E esses, diz, estão a crescer em Portugal : “É um número que inclui desde o investimento dos chamados projectos novos, que aumentou substancialmente, ao investimento no sector imobiliário, que diminuiu”, disse Manuel Pinho. "O que interessa para um país é conseguir atrair mais projectos novos. Isso é o investimento de raiz. E o investimento de raiz está a aumentar, felizmente”.
”Não nos podemos resignar”
Já o Presidente da República reagiu aos dados hoje conhecidos com uma mensagem de persistência. “Esta fase da economia pode criar um certo sentimento de descrença nos portugueses, mas não nos podemos resignar e não podemos dessitir”, disse Cavaco silva.
“Nós temos que ir para a frente e eu acredito que Portugal irá ultrapassar esta fase mais difícil da sua situação económica. Estou convencido que Portugal há-de encontrar o caminho de aproximação à média de desenvolvimento da União Europeia”, afirmou o Presidente. »
Pode ver os múmeros em e ainda as séries históricas recentes (1996-2007) em Eugénio Rosa (O Investimento Português no Estrangeiro e o Investimento Estrangeiro em Portugal”; http://resistir.info/e_rosa/ide_set07.html , cf a 20 de Maio de 2008]
III Mas somos bons em matéria de ASAE
A ASAE é a designação da nossa instituição governamental que garante a “Segurança Alimentar e Económica” . As notícias do dia a dia mostram o disparatado fundamentalismo que a orienta (além do caderno de objectivos que orienta a sua acção). O mesmo fundamentalismo tonto que levou o Primeiro Ministro a deixar de fumar…. Na verdade o Governo “Nacional” é um género de ASAE da União Europeia ? Faz tudo para Europeizar ( o que é bom) , mas alterna essencialmente entre o exagero e o fazer mal. O que poderiamos chamar de “baixa política”. Pense nisso…..
IV… e “óptimos” na transição para a Sociedade do Precariato…
Pode ler-se n o Jornal de Negócios de hoje: “Jovens qualificados em risco de viver pior que os pais”… como a “Joana, 37 anos, com uma filha, ainda recebe mesada dos pais” ….Já não se trata apenas da dita Geração Jesus Cristo, mas da “Geração da Reforma”, isto é que chega à reforma sem entrar no mercado de trabalho. Se não quer contribuir para a baixa auto-estima nacional não leia nada mais. Se quer conhecer os dados sintéticos e envergonhar-se aqui estão
- Salário Médio no total da Economia (Média Nacional) (2007)- 726 euros
- Salário médios entre os jovens (25-35 anos) a termo (2007): 634 euros
- Salário Médio entre os trabalhadores a termo (contratos a prazo, 2007): 594
Uma transição fulgurante entre a uma Sociedade de Assalariados para uma Sociedade de Pracariato…
V- Tudo isto faz lembrar um Poster de Maio de 1968 ..
Há fenómenos históricos repetíveis mesmo que com outras cores … e nada é eterno, incluíndo a “Democracia” de baixo nível que nos caracteriza. "Não nos podemos resignar", é uma ideia inspiradora que pode ter vários caminhos. E um dia destes podemos ter os nossos jovens a expressar a sua não resignação. Há políticas activas para superar este caldo perigoso: estimular uma boa mobilidade /emigração de quadros em formação ou já formados....é uma delas. Tenho-a recomendado vivamente aos meus filhos. O "país" não os merece e eles, dotados de recursos de "empregabilidade", não podem fazer nada pelo "país" a não ser promover telemóveis e outras quinquilharias modernas ou ter " novas janelas de oportunidades" como porteiros de cinemas, recepcionistas e famílio-dependentes. Uma miserável indignidade.
HAF